Da Editora
Abril, Superinteressante
Terça-feira,
13 de outubro de 2015 (12:14:01)
Pacientes
que lutam contra o câncer entraram em pânico quando descobriram que não
poderiam mais ter acesso à fosfoetanolamina, uma substância supostamente
anticancerígena, produzida por um professor Instituto de Química da USP de
São Carlos.
A
decisão foi tomada dia 28 pelo presidente do Tribunal de Justiça de São
Paulo (TJ-SP), José Renato Nalini, que justificou o ato dizendo que "(...)
não há nenhuma prova de que, em humanos, a substância reclamada, que não é um
remédio, produza algum efeito no combate a doenças. Portanto, presentes os
requisitos legais, o deferimento da suspensão é medida de prudência".
Para
entender por que a medida gerou tanta insatisfação, é preciso voltar um pouco
no tempo. A ação da fosfoetanolamina em células cancerosas é estudada
desde o começo dos anos 90 pelo professor da USP, Gilberto Orivaldo Chierice,
hoje aposentado. Essa substância é sintetizada naturalmente em algumas células
do nosso corpo, como as do fígado e dos músculos do bíceps, por exemplo. Até o ano
de 2014, a versão sintética da substância era distribuída gratuitamente para os
pacientes que buscavam um tratamento complementar ou alternativo. Seu custo de
produção é de aproximadamente R$ 0,10 por cápsula.
Entre
os relatos dos usuários, constam curas sem cirurgia, reduções drásticas
dos tumores e melhora nas dores típicas do tratamento. Alguns médicos chegaram
a apoiar o uso do medicamento, mesmo sem provas conclusivas de sua eficácia,
acreditando que a melhora venha do efeito placebo associado a
um tratamento tradicional, como a quimioterapia ou a radioterapia.
Em
2014, o Instituto de Química de São Carlos assinou uma portariaproibindo a produção e
distribuição de substâncias médicas e sanitárias que não possuíssem os devidos
registros e licenças. Como a fosfoetanolamina não tinha registro na Anvisa,
acabou sendo proibida. E pacientes começaram a recorrer à Justiça para que
o remédio fosse liberado. A USP afirmou que não possui meios para produzir
as cápsulas em larga escala. Mas, por decisão de liminares judiciais, foi
obrigada a fabricar e fornecer a substância para mais de 360 pessoas entre
meados de 2014 e setembro de 2015.
A
comunidade científica não reconhece a eficácia da fosfoetanolamina contra
o câncer. Há alguns estudos mostrando que a substância está relacionada com a morte de células cancerosas,
mas a Anvisa diz que, para obter o registro, é preciso
apresentar análises clínicas detalhadas.
Supostamente,
o mecanismo de ação da droga é o seguinte: nas células cancerosas, as
mitocôndrias têm a atividade prejudicada. Isso acontece pela falta de
ácidos graxos, que é justamente o que a fosfoetanolamina fornece. Dessa forma,
se o paciente de câncer ingerir doses suplementares de fosfoetanolamina, em tese,
as mitocôndrias voltam a funcionar. Isso faz com que o sistema imunológico
seja alertado para a presença da célula cancerosa - e dispare o processo
de apoptose, ou morte celular. Ou seja, o próprio sistema de defesa do
organismo mata as células malignas.

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